Yahoo analisou mensagens de email recebidas de centenas de milhões de usuários

A agência de notícias Reuters desvendou um escândalo inédito: o Yahoo secretamente violou mensagens de email recebidas por centenas de milhões de seus usuários no ano passado.

A operação colossal foi resultado de uma solicitação sigilosa de oficiais de Inteligência do governo norte-americano para pesquisar sobre um conjunto específico de caracteres não-revelados.

Para atender a demanda, o Yahoo criou e operou um programa customizado que realizou uma varredura em tempo real, por um período indeterminado, de literalmente todas as mensagens recebidas dos usuários do serviço de email, independente de sua localização física ou nacionalidade. A denúncia foi confirmada por três ex-funcionários do Yahoo à agência de notícias e por uma quarta fonte ligada ao caso. Todos solicitaram anonimato na questão.

O caso inédito impressiona não apenas pelo volume como também pelo ineditismo. Até então, eram conhecidas investigações em que autoridades da NSA ou do FBI solicitavam, mediante autorização judicial, acesso a mensagens já armazenadas nos servidores ou acesso a um número limitado de contas.

A revelação da Reuters colocou em questionamento a estrutura da operação de vigilância perpetrada pelos serviços de Inteligência, mesmo depois do escândalo provocado pelos vazamentos de Edward Snowden e depois da administração federal ter afirmado que iria revisar os procedimentos para preservar a privacidade de indivíduos e nações. O monitoramento sistêmico efetuado pelo Yahoo viola diversos tratados de preservação de sigilo assinados por outros países, principalmente no que tange à União Europeia, que sempre demonstrou preocupação com o tráfego de dados de seus cidadãos por servidores e serviços norte-americanos.

Ainda segundo a Reuters, a atitude do Yahoo foi o pivô do pedido de demissão de Alex Stamos, em Junho de 2015. Na época, o executivo ocupava o cargo de Diretor de Segurança de Informação do Yahoo e ele teria se recusado a colaborar com o esquema de vigilância. A decisão de obedecer à solicitação da Inteligência norte-americana teria vindo diretamente de Marissa Mayer, CEO do Yahoo.

Segundo as fontes consultadas, Alex Stamos teria apontado uma vulnerabilidade no software produzido para monitoramento que poderia facilitar o acesso de hackers aos sistemas do Yahoo. Atualmente, Stamos ocupa cargo semelhante no Facebook e se recusou a comentar sobre o incidente.

Questionado pela reportagem, o Yahoo limitou-se a emitir uma nota formal onde afirma que “o Yahoo é uma empresa que obedece às leis, e cumpre as leis dos Estados Unidos”, sem oferecer mais explicações.

Em resposta à publicação da Reuters, Microsoft e Google também publicaram comunicados onde enfatizaram que não realizaram o mesmo tipo de procedimento se solicitados por representantes do governo norte-americano. Um porta-voz do Google declarou que esse tipo de pedido nunca foi realizado para a empresa e, se fosse, o Google teria uma resposta simples: “sem chance”. Em um tom mais burocrático, o representante da Microsoft revelou que a empresa nunca se envolveu nesse nível de monitoramento, mas não informou se já recebeu algum tipo de solicitação nesse sentido.

Twitter, Facebook e Apple também publicaram afirmações similares, negando a existência de pedidos, mas reiterando que as combateriam na Justiça caso fosse necessário.

No Twitter, Edward Snowden, o delator inicial dos mecanismos de espionagem e monitoramento empregados pela NSA, foi sucinto e direto: “Usa Yahoo? Eles secretamente rastrearam tudo que você já escreveu, muito além do que a lei exige. Feche sua conta hoje”.

 

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